Cultura que transforma
Por Renato Janine
Ribeiro
Há muitas definições
de cultura, mas gosto de trabalhar com uma em especial: a cultura efetua uma
transformação na vida das pessoas (ponto 1) no sentido de ampliar seu leque de
escolhas e, assim, de aumentar sua liberdade (ponto 2).
Isso significa que não há uma substância chamada “cultura” e portanto o que é
cultura para uma pessoa, pode não o ser para outra. O importante, então, é que
também não há uma acumulação de cultura, pela qual alguém se torna dono dela,
ou seja, possui “mais” cultura do que outro indivíduo. Mais ainda, e
paradoxalmente, uma pessoa “culta” talvez tenha menos chances de viver a
cultura do que uma pessoa inculta.
Para quem freqüenta museus, cinemas, teatros, o grau de novidade de uma obra
cultural, a mudança que ela lhe proporciona, pode estar perto de um grau zero.
É como se estivesse esgotando sua capacidade de ampliar enfoques – enquanto uma
pessoa virgem em cultura pode ter um vasto território a expandir. Daí que numa
política cultural é importante visar os primeiros, os “cultos”, entre os quais
eu incluiria boa parte dos criadores e dos freqüentadores da cultura mais
influentes na alocação de recursos. Mas o realmente crucial é privilegiar
aqueles – as massas, hoi polloi, como diriam os gregos antigos e os ingleses
atuais – que até agora tiveram pouco acesso às obras e podem extrair mais
delas.
Esta definição de cultura pelo “efeito” que ela tem na vida das pessoas
enfatiza seu caráter fortemente libertador, ao mesmo tempo em que reduz a
importância de uma hierarquia das obras “em si”. Na verdade, as obras valem
pelo que produzem ou propiciam a seus usuários. Por isso, o cultural desempenha
um papel relevante na vida social. Há um caso em particular que sempre me chama
a atenção. Na Irlanda do Sul, fortemente católica, quando se deu a
independência do Reino Unido, eliminou-se da vida pública qualquer referência
ao homossexualismo. Disso resultou que rapazes que não gostavam de moças só
podiam imaginar que tinham uma vocação sacerdotal. Disso, por sua vez, decorreu
que, passado algum tempo, eles abusassem sexualmente dos meninos a quem
supostamente educavam. Esse é um exemplo terrível de como as limitações
culturais escravizam e infelicitam as pessoas – e, inversamente, de como uma
abertura para o horizonte, a possibilidade de viajar imaginariamente para
experiências que estão geograficamente longe de nós, nos emancipa.
O acesso à cultura, assim, não consiste apenas em mais pessoas visitarem museus
ou assistirem a peças ou filmes. Ele significa mais pessoas terem uma
experiência intensa de ampliação de perspectivas pelo contato com o que é
diferente. Dançar, para um pé de pau; ver um quadro, para quem nunca apreciou o
jogo das cores; ler, para quem jamais desfrutou um livro, podem ser
revolucionários. A questão não é quantitativa, meramente numérica. É de um
valor que se agrega, sim, mas que consiste em qualidade. E essa
qualidade se resume numa palavra: maior liberdade. A cultura liberta; traz mais
opções a quem a vivencia. Por isso a cultura tem um papel-chave na vida
democrática. Sem ela, o que será a democracia: apenas eleições políticas?
Escolher os governantes, aprovar as leis são parte muito pequena do que é a
vida democrática. Se a democracia é liberdade, quer dizer que ilumina a vida
íntima, pessoal, afetiva. A cultura abre a porta de imaginários que, por sua
vez, constroem novas vidas. O menino confinado entre vacas e cavalos que se descobre
homossexual, o favelado que percebe seu dom para a música, estão abrindo novos
rumos para si mesmos. Aqui entram outras eleições – no sentido exato que a
palavra tem e que quer dizer, simplesmente, “escolhas”. Podemos escolher
melhor, se formos cultos. Mas a palavra “cultos” está tão gasta que parece
significar quem tem um cabedal, um estoque de informações. Não é isso. Cultura
é poder de transformar. A criança que, assistindo à Flauta mágica no filme de
Ingmar Bergmann, vai-se deslumbrando a cada episódio novo tem uma vivência
cultural mais rica do que o melômano que sabe distinguir cada soprano que
aparece e seus matizes.
Evidentemente há um espaço que é dos criadores e dos críticos. Mas não é no
território deles que se dá o acesso à cultura, sua democratização, seu papel
emancipador. É claro que toda organização da cultura, desde as secretarias de
Estado até os patrocinadores privados, deve apoiar a criação, a novidade, a
preservação. Mas estas são condições para algo que é o cerne do cultural, e que
está na recepção. Uma recepção, por sinal, que não é passiva, mas se constitui
numa apropriação da obra. Até os erros (como quando a personagem vivida por
Melina Mercouri, em “Nunca aos domingos”, acha que as tragédias gregas acabam…
bem) fazem parte dessa riqueza receptiva, pela qual o espectador também se
torna um tanto criador. Algumas obras notáveis se fizeram sobre esse encontro
da arte com o principiante.
Um filme cubano dos anos 60 mostra a primeira vez que se mostra uma película
para uma aldeia que nunca viu uma antes. Godard, em Tempos de guerra, tem uma
cena com um rapaz que vai olhar o que está acontecendo (acha ele!) atrás da
tela. Cinema Paradiso toca no mesmo tema. Essas ingenuidades são, às vezes,
engenhosidades. Elas podem contribuir com algo novo. O olhar culto pode estar
viciado; precisamos, constantemente, do confronto com percepções diferentes.
Como promover então a democratização cultural? Não é apenas levando mais gente
a atividades culturais. É assegurando que essas experiências ampliem seus
horizontes. É descobrindo novas vocações, que podem até se converter em
profissão ou se manter como hobbies, pouco importa – mas que agreguem sentido
às vidas. Porque nosso tempo não suporta a monotonia e ao mesmo tempo a
reproduz sem cessar. Ora, uma das poucas maneiras de sairmos da monotonia que
não seja histérica (o desespero por ser célebre, o homem ou mulher que é serial
lover, o consumismo sem freios, o workaholism desbragado) é pelo amor ao que se
faz.
Renato Janine Ribeiro
é professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo.
Autor, entre outros livros, de Ao leitor sem medo (Ed. UFMG), A sociedade
contra o social (Companhia das Letras), O afeto autoritário (Ateliê) e A ética
na política (Lazuli).
Isso significa que não há uma substância chamada “cultura” e portanto o que é cultura para uma pessoa, pode não o ser para outra. O importante, então, é que também não há uma acumulação de cultura, pela qual alguém se torna dono dela, ou seja, possui “mais” cultura do que outro indivíduo. Mais ainda, e paradoxalmente, uma pessoa “culta” talvez tenha menos chances de viver a cultura do que uma pessoa inculta.
Para quem freqüenta museus, cinemas, teatros, o grau de novidade de uma obra cultural, a mudança que ela lhe proporciona, pode estar perto de um grau zero. É como se estivesse esgotando sua capacidade de ampliar enfoques – enquanto uma pessoa virgem em cultura pode ter um vasto território a expandir. Daí que numa política cultural é importante visar os primeiros, os “cultos”, entre os quais eu incluiria boa parte dos criadores e dos freqüentadores da cultura mais influentes na alocação de recursos. Mas o realmente crucial é privilegiar aqueles – as massas, hoi polloi, como diriam os gregos antigos e os ingleses atuais – que até agora tiveram pouco acesso às obras e podem extrair mais delas.
Esta definição de cultura pelo “efeito” que ela tem na vida das pessoas enfatiza seu caráter fortemente libertador, ao mesmo tempo em que reduz a importância de uma hierarquia das obras “em si”. Na verdade, as obras valem pelo que produzem ou propiciam a seus usuários. Por isso, o cultural desempenha um papel relevante na vida social. Há um caso em particular que sempre me chama a atenção. Na Irlanda do Sul, fortemente católica, quando se deu a independência do Reino Unido, eliminou-se da vida pública qualquer referência ao homossexualismo. Disso resultou que rapazes que não gostavam de moças só podiam imaginar que tinham uma vocação sacerdotal. Disso, por sua vez, decorreu que, passado algum tempo, eles abusassem sexualmente dos meninos a quem supostamente educavam. Esse é um exemplo terrível de como as limitações culturais escravizam e infelicitam as pessoas – e, inversamente, de como uma abertura para o horizonte, a possibilidade de viajar imaginariamente para experiências que estão geograficamente longe de nós, nos emancipa.
O acesso à cultura, assim, não consiste apenas em mais pessoas visitarem museus ou assistirem a peças ou filmes. Ele significa mais pessoas terem uma experiência intensa de ampliação de perspectivas pelo contato com o que é diferente. Dançar, para um pé de pau; ver um quadro, para quem nunca apreciou o jogo das cores; ler, para quem jamais desfrutou um livro, podem ser revolucionários. A questão não é quantitativa, meramente numérica. É de um valor que se agrega, sim, mas que consiste
Evidentemente há um espaço que é dos criadores e dos críticos. Mas não é no território deles que se dá o acesso à cultura, sua democratização, seu papel emancipador. É claro que toda organização da cultura, desde as secretarias de Estado até os patrocinadores privados, deve apoiar a criação, a novidade, a preservação. Mas estas são condições para algo que é o cerne do cultural, e que está na recepção. Uma recepção, por sinal, que não é passiva, mas se constitui numa apropriação da obra. Até os erros (como quando a personagem vivida por Melina Mercouri, em “Nunca aos domingos”, acha que as tragédias gregas acabam… bem) fazem parte dessa riqueza receptiva, pela qual o espectador também se torna um tanto criador. Algumas obras notáveis se fizeram sobre esse encontro da arte com o principiante.
Um filme cubano dos anos 60 mostra a primeira vez que se mostra uma película para uma aldeia que nunca viu uma antes. Godard, em Tempos de guerra, tem uma cena com um rapaz que vai olhar o que está acontecendo (acha ele!) atrás da tela. Cinema Paradiso toca no mesmo tema. Essas ingenuidades são, às vezes, engenhosidades. Elas podem contribuir com algo novo. O olhar culto pode estar viciado; precisamos, constantemente, do confronto com percepções diferentes. Como promover então a democratização cultural? Não é apenas levando mais gente a atividades culturais. É assegurando que essas experiências ampliem seus horizontes. É descobrindo novas vocações, que podem até se converter em profissão ou se manter como hobbies, pouco importa – mas que agreguem sentido às vidas. Porque nosso tempo não suporta a monotonia e ao mesmo tempo a reproduz sem cessar. Ora, uma das poucas maneiras de sairmos da monotonia que não seja histérica (o desespero por ser célebre, o homem ou mulher que é serial lover, o consumismo sem freios, o workaholism desbragado) é pelo amor ao que se faz.
Acessibilidade
como direito à fruição do produto cultural
Por blogacesso
Para Viviane Sarraf, especialista
em espaços culturais acessíveis e curadora do Centro de
Memória Dorina Nowill, o cenário cultural acessível
para as pessoas com deficiência vem crescendo bastante ao longo dos últimos
sete anos. “Vários museus, centros culturais, festivais de cinema e teatro, se não
estão oferecendo estratégias inclusivas, já as desenvolvem em projetos de
captação de recursos e os submetem aos editais públicos e privados de fomento à
cultura”, afirmou.
A especialista
destacou ações pioneiras no campo da acessibilidade cultural que, segundo ela,
são conduzidas por profissionais e gestores culturais que, sem qualquer tipo de
incentivo público ou política de apoio, começaram a desenvolver programas de
acessibilidade em suas instituições, como é o caso do MAM-SP, daPinacoteca do Estado de São Paulo,
do Museu de
Ciências Morfológicas da UFMG, do Museu de Zoologia da USP e do próprio Centro
de Memória Dorina Nowill.
No que diz respeito
às políticas públicas, no entanto, Sarraf considera o atual cenário ainda
insatisfatório. “No campo da acessibilidade cultural, elas ainda não existem,
mas podemos considerar que alguns caminhos estão começando a ser traçados, como
no caso das premiações lançadas pelo Ministério da Cultura – os prêmiosCultura e Saúde e Arte e Cultura
Inclusivas –, dos editais de empresas privadas
e, recentemente, do lançamento do Curso de
Especialização em Acessibilidade Cultural da UFRJ”,
avaliou.
O curso mencionado
por Sarraf é o primeiro no Brasil, em nível de pós-graduação, dedicado a pensar
políticas, experimentos e projetos de acessibilidade cultural para pessoas com
deficiência. Sua coordenadora, Patrícia Dorneles, explicou que, enquanto as
iniciativas de promoção da acessibilidade limitam-se, em geral, à questão da
mobilidade, a proposta do curso é trabalhar o tema a partir da perspectiva da
fruição do produto cultural.
“Vemos que existem
iniciativas de acessibilidade cultural, mas, na sua grande maioria, muito
determinadas ainda pela limitação da acessibilidade física. Um cadeirante que
não tenha algum outro tipo de deficiência pode assistir a uma peça de teatro, pode
ir ao cinema, ele tem um banheiro adaptado, mas as outras deficiências não têm
acessibilidade cultural. Temos uma dívida social, no sentido de promover para
as outras pessoas com deficiência o direito de fruição cultural, de consumo de
um produto cultural. Como é que você transforma e torna acessível um produto
cultural para um deficiente visual, um deficiente auditivo, uma pessoa que tem
múltiplas deficiências, que precisa de outros recursos para compreender a
produção de arte e de cultura?”, questionou Dorneles.
Embora existam, no
Brasil, iniciativas importantes de acessibilidade no campo da fruição estética
do produto cultural, a especialista as considera limitadas às fundações mistas
ou privadas, pouco presentes nos espaços públicos. Por isso, um dos objetivos
do curso de especialização é ser um instrumento para a efetivação de algo que o
movimento de pessoas com deficiência já conquistou no campo da cultura. “A
acessibilidade cultural está no Plano Nacional
de Cultura, está no Sistema Nacional de Cultura e
aparece em vários outros debates do MinC, como a oficinaNada Sobre Nós
Sem Nós, realizada em 2008, que reuniu pessoas do
Brasil inteiro que atuam nesse campo e criou uma publicação que apresenta ações
e diretrizes para uma política pública de cultura para pessoas com
deficiência”, disse.
Segundo Dorneles, as
conquistas já foram obtidas no campo da legislação, mas existe ainda uma
distância muito grande até sua efetivação. “Ao divulgar o curso pelo Brasil,
percebemos que muita gente nem conhecia a questão da acessibilidade relacionada
à fruição estética do produto cultural”, lembrou a coordenadora.
Para chamar a atenção
de todo o país para o tema, o Curso de Especialização em Acessibilidade Cultural abriu vagas para 27 gestores, buscando
capacitar ao menos um em cada estado brasileiro, e para os Pontões de
Cultura, que têm como característica capacitar,
formar e transmitir tecnologias sociais para os outros Pontos de
Cultura. “Abrimos vagas também para a universidade
pública, porque precisamos que essa temática esteja na formação acadêmica. Não
há uma formação de gestor cultural no Brasil, faz pouco tempo que temos alguns
cursos como na Universidade Federal Fluminense ou na Universidade
Federal da Bahia. Agora é que se está atentando para a
capacitação do gestor público de cultura, que precisa de uma formação diferente
daquela do produtor cultural”, explicou Dorneles.
O curso busca, ainda,
alcançar as organizações da sociedade civil para capacitá-las para o controle
social, para a participação nos Conselhos Municipais de Cultural e demais mecanismos
do Sistema Nacional de Cultura, criado
para orientar as políticas municipais e estaduais de cultura e para provocar a
criação dos conselhos. “As secretarias municipais e estaduais de cultura, que
tenham intenção de fazer convênios com o MinC ou de receber apoios para projetos,
têm o compromisso de buscar a implementação do Plano
Nacional de Cultura e,
dentro do plano e do sistema, existe essa atenção para a acessibilidade
cultural das pessoas com deficiência. Mas, mesmo assim, tanto no plano como no
sistema, isso está muito frágil e poderia ser mais aprofundado”, observou
Dorneles.
Por Bernardo Vianna /
Blog Acesso
Tags: acessibilidade, produção
cultural
Economia
Criativa_10.12
Para Viviane Sarraf, especialista
em espaços culturais acessíveis e curadora do Centro de
Memória Dorina Nowill, o cenário cultural acessível
para as pessoas com deficiência vem crescendo bastante ao longo dos últimos
sete anos. “Vários museus, centros culturais, festivais de cinema e teatro, se não
estão oferecendo estratégias inclusivas, já as desenvolvem em projetos de
captação de recursos e os submetem aos editais públicos e privados de fomento à
cultura”, afirmou.
Programa promove intercâmbio entre Brasil e Reino Unido em
artes, gestão e economia criativa
Por Blog Acesso
Lançado esta semana durante oFestival
Internacional de Cinema do Rio, o Transform é um programa de artes promovido peloBritish Council, que pretende estreitar o diálogo
entre Brasil e Reino Unido em diferentes áreas artísticas, gestão cultural e
economia criativa. Além de projetos de música, dança, artes visuais, teatro e
literatura, o intercâmbio também se dará por meio de atividades de capacitação
e troca de conhecimentos em gestão cultural.
O intercâmbio
promovido pelo Transform conecta, além de artistas e
produtores, as principais instituições culturais brasileiras e britânicas. São
cerca de 40 organizações brasileiras, entre elas o SESC, o CCBB, o SESI e a Bienal de São Paulo,
e 25 instituições britânicas, como Tate, Victoria and Albert Museum, Southbank
Centre eThe Sage Gateshead.
Graham Sheffield,
diretor de artes do British Council, e Jude Kelly,
diretora doSouthbank Centre,
fazem a curadoria do programa com o aconselhamento curatorial de Marcelo
Araújo, secretário de Cultura do Estado de
São Paulo, Emílio Kalil, secretário Municipal de
Cultura do Rio de Janeiro, Danilo Miranda, diretor regional
do SESC São Paulo, Claudia Toni,
consultora de música e dança da Fundação Padre
Anchieta, e representantes de instituições culturais
britânicas.
Bate-papo sobre gestão
cultural
Na noite desta
quarta-feira (03), Graham Sheffield esteve no SESC Pinheiros, em São Paulo , para um dos
momentos de troca de conhecimento, um bate-papo sobre gestão cultural.
Sheffield, que também já foi produtor da rádio BBC, falou sobre sua experiência à frente do Barbican Centre, que, dirigido por ele, tornou-se um
dos centros culturais mais inovadores e dinâmicos do mundo, com programação
vencedora de prêmios internacionais.
O diretor de artes do British
Council contou
que a solução encontrada para oBarbican,
que, até então, não era uma instituição das mais populares, foi criar um
programa educativo e trazer mais artistas residentes. “A criação de um
departamento de educação começou a transformar toda a cultura do prédio e das
pessoas que trabalhavam nele. Começamos a criar um ambiente em que os artistas
iam trabalhar no prédio, começamos a ter dias para as famílias nos foyers e isso foi mudando o espaço. As
pessoas passaram a sentir-se parte dele ao invés de tratá-lo como um serviço de
uma instituição municipal”, contou Sheffield. “Acredito que é um lugar único
com sua combinação de educação, artes e residências artísticas em uma região
hoje bastante vibrante de Londres”, acrescentou.
De acordo com
Sheffield, atualmente, quase não há instituições de artes no Reino Unido sem um
programa educativo. “E são programas muito inovadores. Se você for um cético,
pode dizer que é porque assim eles recebem mais fundos do governo, mas eu
acredito que não. Para mim há uma genuína paixão dos artistas por compartilhar
seu trabalho com as próximas gerações”, disse.
As audiências, na opinião
do curador, estão se tornando mais exigentes e curiosas desde o advento da
internet. Para ele, existe, atualmente, uma nova demanda que precisa ser
atendida pelos gestores: as audiências querem participar. “Muito do trabalho
que fizemos no Barbican, e do trabalho que
buscamos incentivar no British Council parte da ideia de participação, de
encorajar a criatividade do público – quer ele pretenda tornar-se um artista
profissional ou não. O problema é que isso não está suficientemente conectado
ao sistema de educação básica para permitir que o setor das artes e o da
educação trabalhem juntos”, disse Sheffield ao criticar a falta de compreensão
da classe política sobre a importância de uma educação liberal em humanidades
como parte do currículo básico. “Não vamos chegar a lugar nenhum sem conectar o
investimento em cultura ao investimento no ensino de artes e humanidades na
educação. O mesmo aplica-se ao entendimento dos políticos quanto ao
desenvolvimento das indústrias criativas”, afirmou Sheffield.
Para ele, as
indústrias criativas vem sendo tratadas como “a parte boa da cultura, aquela
que dá dinheiro”. O equívoco, no caso, é falhar em ver todas as conexões entre
os diferentes fatores envolvidos, como a criatividade, o desenvolvimento de
negócios por meio das artes ou a reciprocidade entre o setor comercial e o
subsidiado. “É um quebra-cabeças interconectado e você tem que dar apoio ou ao
menos facilitar para cada uma das partes. Você não pode investir na indústria
criativa e deixar de investir nas artes. E eles falham também em compreender –
aliás, me parece que os chineses já entendem isso melhor – a oportunidade
fundamental que o setor criativo pode oferecer à economia global, ou, ao menos,
à economia europeia, para que ela volte a se desenvolver. Mas isso precisa ser
trabalhado desde o sistema de educação, precisa ser apoiado de uma forma
coerente e linear por toda a economia. Está tudo conectado”, explicou.
Bernardo Vianna /
blog Acesso
Tags: gestão cultural
Lançado esta semana durante oFestival
Internacional de Cinema do Rio, o Transform é um programa de artes promovido peloBritish Council, que pretende estreitar o diálogo
entre Brasil e Reino Unido em diferentes áreas artísticas, gestão cultural e
economia criativa. Além de projetos de música, dança, artes visuais, teatro e
literatura, o intercâmbio também se dará por meio de atividades de capacitação
e troca de conhecimentos em gestão cultural.
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